quinta-feira, 24 de setembro de 2009

    Memória

    Amar o perdido
    deixa confundido
    este coração

    Nada pode o olvido
    contra o sem sentido
    apelo do Não

    As coisas tangíveis
    tornam-se insensíveis
    à palma da mão

    Mas as coisas findas
    muito mais que lindas,
    essas ficarão

    carlos drummond

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

2409091927

subir e descer,

cair e levantar,

ausência e presença.

um lugar é só um lugar.

que é seu enquanto você ocupa.

isso vale para uma cadeira

e para um coração.

por isso não me preocupo com aqueles que outros ocuparem.

Os que verdadeiramente importam,

estarão sempre lá,

reservados pra mim.


lembrança: ani l'eahov at


"ficou tudo fora do lugar

café sem açúcar

dança sem par"


não sei entender

muito menos meu pulmão que aperta o dia todo, prende a respiração.

.

será que você merece?

se eu duvido, tem que haver motivo em algum sentido.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

.
além
o sol nem tinha se posto
e eu vi,
eu vi
o poeta em seu pássaro
voando a rua
com um coração sangrando na mão
fugindo pra longe de onde não consegue estar
levando seus poemas medrosos
seus sentimentos duvidosos
que dançam no poema
pra impressionar quem?
se foges
mentes
e aqui não
aqui
amanhã já é primavera
e as flores renascem desde que
decidi ver o intangível
o amor era intocável
porque talvez não fora
as amoras despontam
e eu sinto saudade
muita
além
.

domingo, 20 de setembro de 2009

2009091520

eu disse uma vez
jaz aqui um amor

vivo ou não,
delírio duplo
espíritos que tentam se aquietar num corpo só
alma que não sustenta
tamanho equilíbrio sereno
de quem ama atenta
e percebe como apaziguar todo um suspiro
num instante só

na bemaventurada cama que durmo
nasço todos os dias com saudade do amanhã
eu olho do centro do mundo
os desejos incomuns que te cercam
e me alegro por poder dançar livre
no ritmo que meu corpo pede
ocupo exatamente o lugar que me cabe
mas espaçosa prá caber
ultrapasso até onde posso
porque o cheiro que sai dos meus poros acesos
fica em você por tempos,
permanece


hoje muito cedo eu vou pirar
e pensar tudo num tempo só



My wild love is crazy.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

1609092202

me deito com meu silêncio
faço amor com minha solidão
sofro
mas me descubro
gosto do gosto azedo
dessa descoberta
me descubro
na cama semi descoberta
sinto o gosto do sal:
é inevitável...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Ella

confessa em cada noite que nasce
os piores pecados que carrega entre as pernas
não resta nem o charme
seu cigarro de mama cadela
transpira suor barato e
no solado surrado do tamanco velho
um chiclete grudado
que salva a sua boca suja
num momento qualquer de aperto

terça-feira, 18 de agosto de 2009

1708092130

neste céu que me cobre
no dorso desta noite que me envolve
estou deitada na iminência do pensamento
permito que agora
eu me encontre com meu silêncio
a rosa não
c
a
i
p
l
a
i
n
a
no vento
abrindo um mar inteiro de acolhimento
vejo retalhos de lua minguante
o encontro exato
pontual no leito
nestes dias de ritmo manso
tenho os dois pés sobre flores

domingo, 9 de agosto de 2009

agoraesemdemora

sob qualquer chão
pisando em qualquer noite
mirando qualquer estrela
cantando pra qualquer lua
tudo é
agora e sem demora
quando se trata de você

terça-feira, 7 de julho de 2009

Um Banco

já sei que
quem olha de longe
eu, meu óculos, meu cigarro
no centro do banco
[só] lendo algum livro
enxerga solidão
quem olha de longe se engana
se olhar de perto estranha
mas
se olhar pra dentro descobre
minha imensidão

sexta-feira, 26 de junho de 2009

UmSó

no piscar de uma estrela
um rio de sensações
corria entre nós
nos via dançando
ardentes e mudos
denunciava a respiração
ora ofegante, depois suspiro leve
nesta noite ganhamos o infinito
no momento eterno desse olhar
tirei uma foto dessa expressão
te disse: essa eu não conheço
você com olhos densos
piscou de um olho só
pintei essa expressão
na face da nossa noite
cor e sabor
uma grande alquimia
nossa

segunda-feira, 22 de junho de 2009

domingo, 14 de junho de 2009

este domingo
tem a duração
daquele cigarro
que a gente fazia
e fumava juntos
esparramados entre as almofadas
na sacada fria

vezes
assisto
um passado morto
e fumo um cigarro apagado
que não dura nada
no quarto vazio
onde agora durmo ou não

terça-feira, 9 de junho de 2009

oi, como você chama?
pode esquentar os meus pés?

sexta-feira, 5 de junho de 2009

o amor me merece?

as palavras despencam no pensamento
o que hei de cantar quando o fim me cumprimentar?
o som mudo do amor incontido,
a miséria do frio em pleno calor.
serei eu cega ao olhar despido,
surda ao canto da chuva na terra.
dançarei em frente o espelho, cadenciadamente olhando a felicidade forçada
refletida nas unhas vermelhas e no copo de vinho,
na cor dos lábios e o rimel nos olhos.
nada natural, tudo invocado,
proporcional ao vazio,
ao copo vazio
ao co r po vazio
à alma arredia.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Instante

Às três e meia da madrugada acordei. E logo elástica pulei da cama. De manhã acordo cheia de frutos. Vim te escrever. Quer dizer: ser. Escrevo-te sentada junto de uma janela aberta no alto do meu atelier. Escrevo-te a medida de meu fôlego. De nada tenho vontade: estou pura. Não te desejo esta solidão. (Agora vou acender um cigarro). Talvez volte pra máquina ou talvez pare por aqui mesmo para sempre. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa. Quero possuir os átomos do tempo. Quero captar o meu é. Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro. Sei que são primárias as minhas frases, escrevo com amor demais por elas e esse amor supre as faltas, mas amor demais prejudica os trabalhos. O que escrevo é um só clímax? Meus dias são um só clímax: vivo à beira. Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio. Estou atrás do que fica atrás do pensamento. Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais. Uma espécie de doida, doida harmonia. Posso não ter sentido mas é a mesma falta de sentido que tem a veia que pulsa. A ventania sopra e desarruma os meus papéis. Não quero perguntar porque, pode-se perguntar sempre porque e sempre continuar sem resposta: será que consigo me entregar ao expectante silêncio que segue de uma pergunta sem resposta? O que te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa. Mais que um instante, quero o seu fluxo. Quero a vibração do alegre. Não é confortável o que te escrevo. Não faço confidências. Estou viva. Mas sinto que ainda não alcancei os meu limites, fronteiras com o que? Sem fronteiras, a aventura da liberdade perigosa. Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca. E tudo isso ganhei ao deixar de te amar. Procuro me distrair do medo. O que sei é tão volátil e quase inexistente que fica entre mim e eu. Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada. Sou sozinha, eu e minha liberdade. Não sei sobre o que estou te escrevendo. Escrevo-te porque não me entendo. Há muita coisa a dizer que não sei como dizer. Minha essência é inconsciente de si própria e é por isso que cegamente me obedeço. A verdade está em alguma parte: mas inútil pensar. Não a descobrirei e no entanto vivo dela. Hoje é noite de lua cheia. Então fujo fechando os olhos. Porque lua cheia é de uma insônia leve: entorpecida e dormente como depois do amor. Será que isto que estou te escrevendo é atrás do pensamento? Raciocínio é que não é. Vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada. É que não sei aonde me levará esta minha liberdade. Tenho certo medo de mim, não sou de confiança, e desconfio do meu falso poder. O que te escrevo não tem começo: é uma continuação. Estou melancólica. É de manhã. Mas conheço o segredo das manhãs puras. E descanso na melancolia. Já entrei contigo em comunicação tão forte que deixei de existir sendo. Você tornou-se um eu. Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Tais momentos são meu segredo. Eu chamo isso de estado agudo de felicidade. Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo. Um dia disseste que me amavas. Finjo acreditar e vivo, de ontem pra hoje, em amor alegre. Mas lembrar-se com saudade é como se despedir de novo. Fantástico: o mundo por um instante é exatamente o que o meu coração pede. Este instante é. Você que me lê é. Você que me lê que me ajuda a nascer. Lê a energia que está em meu silêncio. Espere: está ficando escuro. Mais. Mais escuro. Estou de olhos fechados. Nasci. Sou um coração batendo no mundo. Sou pura inocência. Sou-me.

[adaptação que eu fiz do água viva da clarice lispector, um dos meus preferidos. lembranças minhas e da jaja, este instante foi pra sempre.]